quarta-feira, 19 de abril de 2017

Justiça

Justus recebeu seu nome antes mesmo de nascer. Antes, até mesmo, de ser concebido num ventre - sempre sagrado - que sangra as mazelas do mundo. Germinou de fora do tempo na mente eterna do Criador da Verdade. Ao nascer, teve a sorte de contar com o tempo: veio na hora exata, nem antes nem depois, pois sua matriz era certeira. Justiça era seu anjo guardião, injustiça, sua potestade. Encararia o peso da balança cósmica com a graça de quem sabe sua própria medida. Nem mais nem menos, apenas aquilo que é justo, apenas o preço a ser pago sem desperdício. Quando criança, não mentia, quando jovem, sem calúnias. Apenas verdades.
Claro, tudo isso para si mesmo. Sua potestade via-no sempre com maus olhos, chamava-o mentiroso, monstruoso, castigava-lhe com a maior das balanças impossíveis. Ninguém soube dizer se cumpriu sua missão, pois grande era o seu trabalho e de difícil compreensão. Após sua passagem, sua alma, dividida em medidas igualitárias se espalhou pelo mundo, dando a cada um de seus inimigos a justa porção a quem lhes cabia.
De tanto ofendê-lo, tive minha recompensa: sua potestade, que agora, redimida pela sua morte, se apresenta a mim como justiça. Esse era seu trabalho, inconcluso em seu tempo de vida, pois que o próprio tempo, interpretado pela mente humana, é fruto da injustiça. Agora, olhando de cima, vejo-o com as duas mãos estendidas por sobre a humanidade, dando a todos, os da esquerda e os da direita, porções iguais de seu próprio sangue. Conquistara a Balança, por ter pagado o Justo preço por ela. E eu, que de baixo me olho, engano-me constantemente, por sobre a potestade que me foi dada, e desvio-me daquilo que devo pagar. Tolice, o Tempo há de voltar e cobrar, vez ou outra, aquilo que quis manter para mim mesmo.
Lembrai-me, Justus, do Ego que recebi, da túnica de glória que esqueci, ao deixar as mansões de Luz.
Tua Justiça é misericórdia e Teu castigo é Amor, pois até o Tempo, esse Juiz, a Ti está a servir.



Kaô Kabiecilê



segunda-feira, 27 de março de 2017

O onironauta

Deitado, voo
Ao correr, com os pés a tocar levemente o chão...
Olho minhas mãos
Sei quem sou
Sei o que posso
É tudo nosso!
Neste vasto mundo de ilusão
Percorro eventos 
E com o intento
Faço realidade
Meus sentimentos
O que me atormenta
Vira personagem
E ferramenta
Da obra que ensaio
E apresento
A mim mesmo
Sou o centro metalinguístico
Que expande o fractal interno
E se olha no espelho, inferno
Redimindo as imagens que se faça de si
Uma fagulha de pensar
Transporta o corpo anuviado a qualquer outro lugar
Uma nova história se desenrola
Ao observador-personagem
Que por estas miragens
Projeta e arquiteta
Sua própria esfinge
E atinge
O oásis do Ser-Estar


Eis-me a sonhar

sábado, 25 de março de 2017

A palavra como pecado, a transgressão daquele que ambiciona a criação

Há palavras proibidas. Há assuntos que não devem ser debatidos. Palavra é magia, na inconsciência ou não, afeta e molda o mundo a volta daquele que a pronunciou. Na construção da ilusão, todo cuidado com a palavra é pouco. Percebe a ilusão quem se desiludiu da realidade e olhou para fora do globo construído sobre a Terra plana. Estou pecando, neste momento, em que digito estas palavras malditas. É que insisto na rebeldia de dizer aquilo que não pode ser dito. Costumo pagar o preço com um punhado de felicidade que me esvai ao ser cobrado pela palavra que lancei. O processo é lento, a serpente é faladora e adora lançar uma opinião - ou declarar o óbvio - toda vez que lança o olhar para o mundo da ilusão. Serpente gosta de se fingir poeta, esconder - ou tentar - nas entrelinhas aquilo que quer dizer. Tola, cai em sua própria armadilha, o bote atinge sua própria cauda e, aquilo que gostaria de dizer acaba sendo mal interpretado - por vezes opostamente - e gera um efeito oposto daquilo que intencionou.
Cá estou, pecando novamente, dizendo daquilo que não posso, aprisionando em símbolo linguístico o que nasceu livre e independente de interpretações. A quem peço o perdão pelo pecado da criação?
A quem pede o perdão, o criador, pela obra de suas mãos?

Shhhh

Silencie vosso verbo. É no silêncio que encontras o perdão. É no amor que esfrias e compreende o calor das emoções.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ano novo

De ponto em ponto
Percebo quem sou
Do instante o sextante
Me serve de eixo
Ao astral
Que me deixo
Ser este que penso
Logo existo
No infinito
De um grão

De areia
E pedreira
Brota a cachoeira
Que deságua
A flor de ouro
Em cada coração
Militante da nobre causa
Redentora
É criação

Se respiro
E me inspiro
No sofrimento
É o preço
Do que outrora mereço
E pago na hora
Que sinto
O vigor
Da nova aurora
Em meu pulmão

O sentimento
Reorganizado
Ressignificado
Faz da turbulência
O redemoinho
Que redime em si mesmo
O carma de carne
Em voz e violão
E sopro e canção

Festejo
A regência de Saturno
E em prece, taciturno
Rezo ao Pai
E a Mãe
Que me dê 
Vosso Perdão
É o vinho e é o pão
Nosso, de cada dia
Que se faz hoje

Agradeço,
Ano novo
Por mais este renovo
Em minh'alma
E coração!