O desapego sendo o apego ao desleixo não aprendeu a desapegar-se da vida. Continua, dia após dia, a agarrar-se a ideia de ser livre. Ora, a liberdade não poderia ser objeto de anseio, pois sendo assim, não é liberdade; é prisão com o nome do vento. Este sim é livre, e faz-se ventar sobre todas as cabeças. Perseguir a liberdade do desapego é como correr atrás do vento. Deixa-se de senti-lo, pelo simples fato de não percebê-lo no agora e desejá-lo num futuro que, exigindo gasto de energia, talvez nem aconteça.
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sexta-feira, 22 de maio de 2015
segunda-feira, 2 de março de 2015
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Pseudosocial
O que a modernidade trouxe? Além do óbvio, é claro! Por acaso não inovaste na ironia, mãe de toda trágica comédia? Madre do que chamamos novo milênio! E cá estamos: fingindo ser fantasia o real e realizando as fantasias num universo com vida própria, onde os avatares controlam a ordem social vigente, enquanto desacatam a própria ordem moral, num clima da mais completa anarquia! Não é isso o que se vê a rede representando? Ainda sim, tudo não passa de um enorme experimento social...
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Narci-morto
Na neurótica e constante busca por melhorar a si próprio, se apaixonou pelo que ainda não era. Destilou em futuros anacrônicos a beleza da crônica da vida. Esqueceu-se de ser agora, pensando ser depois o que nunca fora. E do lado de fora observou, enquanto digeria as possibilidades e defecava o que não conseguiu ter sido até então. Morreu! Como se nunca tivesse vivido.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Um rap
Acordo todo dia e vejo morte na cara duzamigo
É que ninguém aguenta mais olhar pro próprio umbigo
Desespero da alma traz jazigo
E na casa das prima ninguém me deu ouvido
Quando disse que o pão que o diabo amassou foi produzido
Com farinha de coca adulterada e pó de vidro.
Qualquer coisa faz papel de acusador
Qualquer coisa pode aliviar essa dor
Mas o preço da anestesia sempre se paga com ardor
E nessa situação onde está o amor?
Silenciado num quarto escuro, psicodélico
Enquanto os que têm o poder bélico
Vendem balas como remédios
Mas não se esqueça
Que o valor financiado cobra juros
E não adianta ficar em cima dos muros
Se a consciência traz luz até aos burros
Se é planta, se é natural aí pode
E nessa festa cega celebramos com um ode
À todos os que morrem, pra que eu possa carregar o meu bode
A hipocrisia está em tudo, está em todos
Num fode
É que ninguém aguenta mais olhar pro próprio umbigo
Desespero da alma traz jazigo
E na casa das prima ninguém me deu ouvido
Quando disse que o pão que o diabo amassou foi produzido
Com farinha de coca adulterada e pó de vidro.
Qualquer coisa faz papel de acusador
Qualquer coisa pode aliviar essa dor
Mas o preço da anestesia sempre se paga com ardor
E nessa situação onde está o amor?
Silenciado num quarto escuro, psicodélico
Enquanto os que têm o poder bélico
Vendem balas como remédios
Mas não se esqueça
Que o valor financiado cobra juros
E não adianta ficar em cima dos muros
Se a consciência traz luz até aos burros
Se é planta, se é natural aí pode
E nessa festa cega celebramos com um ode
À todos os que morrem, pra que eu possa carregar o meu bode
A hipocrisia está em tudo, está em todos
Num fode
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Covardia
Covardia, meu senhor, é pintar-se doutor pra enganar um novo amor.
Sois covardes na medida em que vestes um ultraje, de ser quem não se é pra ludibriar os de boa fé. Vestir a máscara da expectativa alheia, é que nem canto da sereia, que prum mar de desilusões arrasta embarcações.
Ah, mas quem diria de tais amantes, que por certo, cartomantes, leem as mãos de quem recebe o afago?
Covardes mestres pedantes que transformam amor em esmola insignificante...
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Regurgito-me
Sem pensar no que escrever, vomitei.
E do vomito saltaram palavras que não ousei pronunciar.
Ideias que me reviraram o estômago enquanto as digeria.
Formas-pensamento que me consumiam.
E escarneciam.
Pobre de mim,
Coitado.
Que além de hipócrita e medroso,
Finge ser poesia o que antes não passava de remorso.
E do vomito saltaram palavras que não ousei pronunciar.
Ideias que me reviraram o estômago enquanto as digeria.
Formas-pensamento que me consumiam.
E escarneciam.
Pobre de mim,
Coitado.
Que além de hipócrita e medroso,
Finge ser poesia o que antes não passava de remorso.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Machado, vermes e livros.
Aprendo com Machado e seu Casmurro que todo livro está fadado ao fracasso. Toda letra será comida por vermes, e estes, não sabendo o que comem, roem toda a esperança do escritor. Ao perguntar para o verme se sabes algo do que comes, teremos a mesma resposta: de nada sabemos, só roemos. Quem são os vermes? Acaso são apenas os minúsculos seres que nascem da terra? Oh não! Não apenas! Somos também vermes, leitor. Ao passo que roemos as palavras daquele que escreve, estamos destinados a reduzir ao pó tudo aquilo que um dia foi definido por uma pena. Sim! Somos os vermes que dilaceram a esperança dos que acreditam em sua obra! A letra mata, sim! Mas ela também morre! Nós a matamos!
domingo, 14 de julho de 2013
Sobre confiança
É um problema clássico da atual sociedade. Desaprendemos a confiar. Pior, desaprendemos a ser de confiança. Mas por que?
É também característica contemporânea, os relacionamentos serem breves, as amizades rápidas, os amores esquecidos e etc.
Toda essa "nova" face dos relacionamentos humanos não é, senão, um produto do modo que nossos antepassados viveram. Tudo contribuiu para esse nosso mundo atual. As competições que antes eram por terras, mulheres, escravos e "honra" deram lugar a competições por reconhecimento, poder de influência nos que são próximos - e quando possível, nos que são distantes - por uma posição mais elevada na sociedade de consumo, por um padrão de vida melhor...
Isso nos moldou. Nos forjou a alma. O resultado: vê-se todos os dias, em todos os lugares. E digo: não valeu a pena.
Um dos sintomas da nossa doença do progresso é justamente esse: A escassez da confiança. Mas por que não confiamos mais uns nos outros?
Não tenho uma resposta perfeita. Nem sei se minhas conjecturas representam alguma verdade. Mas tento responder a essa pergunta da seguinte forma: Não confiamos, porque não somos de confiança. A teatralização individual da vida pode ser vista como uma coisa boa, afinal, somos "atores no palco da vida" - frase cuja interpretação geralmente é infeliz. Essa vontade de representar um personagem ao invés de nós mesmos, levou a sociedade a aprender uma técnica que antes só era ensinada aos atores, políticos e manipuladores: a da utilização de máscaras. E o homem aprendeu rápido. Logo viu-se confeccionador de máscaras e paredes que mantivessem os outros longe e a integridade individual intocável.
O problema, é que ao mesmo tempo que se foge dos outros, se afasta de si mesmo. E o homem, vendo-se perdido em meio a tantas máscaras acaba confundindo seu verdadeiro rosto. É a verdadeira tragédia grega.
Como confiar em quem não conhece o seu reflexo? Como acreditar em quem mente pra si mesmo? Impossível. E o pior: todos somos confeccionadores de máscaras. Todos mentimos pra nós mesmos todos os dias. E nos perguntamos: "Em quem posso confiar?". Repito: não se pode confiar em ninguém sem se reconhecer no espelho.
Me parece que a solução para esse problema está em cada um. É um processo doloroso. Reaprender a se reconhecer traz conflitos. As máscaras têm vida própria. Mas somente assim, pode-se confiar em alguém, exatamente porque ganha a confiança de alguém.
Quão difícil é encontrar quem é de confiança!
Só é possível acreditar em quem é sincero!
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Menor
De todos os nomes que me dão
Estou farto
Aprendi no parto
Que pobre não tem solução
Sou problema
Dilema
Digno de pena
Só quando cumpro a pena da prisão
Bandido
Assassino
Ladrão
Vagabundo
É só meu pé imundo
Que caminha pelo chão
De todos os nomes que me dão
Nenhum expressa a verdade
Sou menino sem idade
Num país sem educação
Enquanto você vivia
Fui o filho da sua hipocrisia.
Estou farto
Aprendi no parto
Que pobre não tem solução
Sou problema
Dilema
Digno de pena
Só quando cumpro a pena da prisão
Bandido
Assassino
Ladrão
Vagabundo
É só meu pé imundo
Que caminha pelo chão
De todos os nomes que me dão
Nenhum expressa a verdade
Sou menino sem idade
Num país sem educação
Enquanto você vivia
Fui o filho da sua hipocrisia.
Pra que debates,
se o senso comum já bateu o martelo?
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