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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Eles não entendem


E como poderiam?
Se é abrindo o coração
- onde está a coroa –
Que olhamos com outros olhos o segredo da criação?

Ciência não explica a beleza da experiência que ela própria induz
– ao vestir o capuz –
Crucificando uma luz-renascente,
Que desmente,
Qualquer engodo da mente

Tua semente há de contar
As belezas que a mãe Terra dá
- e encarnar o sublime –
Que em todos pode estar

Oh, Mãe do meu filho!
Teu sofrimento é o mais belo alimento
Que sacia a fome do mundo inteiro
- Gerando no centro do peito –
Aquilo que um Pai é pra dar

Se meu choro é presente
- eu, um bruto descrente –
Reergo em lágrimas
Aquilo que desacreditara

Pois que tudo que era estéril
Renasceu pelo vosso mistério!


Para Francisco e Momô

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O Segredo

No hospital das almas
A doença é a loucura
E o remédio que cura
É a verdade que se busca

Desbravar os mares profundos
E mergulhar nas águas que afundam
Todo peso segredo escondido no mundo
É revelado em mistério e sentido na pele

A coragem que se prega
A mente é que nega
E esfrega na cara
Estampando na testa

Dizer de si mesmo é o discurso do louco
Que gira e gira em seu próprio torno
A matéria bruta que não trabalha
E encalha sempre na mesma praia

O quadrado que parece
Bem firmado em uma prece
Não se curva ao Senhor Tempo
Logo, logo então padece

Ora meu amigo
O que quero dizer não é o que digo
Pois palavras retornam ao umbigo
Daquele que não encontrou consigo

É difícil e pesaroso
Todo trabalho honroso
Pois sua glória não é matéria
É noutro plano, é etéria

A firmeza todos têm
Mas é preciso se encontrar
Não é falar do outro
E nem fazer o que não convém

Tudo posso naquele que me fortalece
E bem firmado em Verdadeira prece
Aquela que não parece
Venço dragões de toda espécie

Perdoai este pecador
Que muito fala e pouco faz
Ensinai-me e ser humilde
E praticar Só o Amor

Consolai a minha dor
E daqueles que me acompanham
Para que lá na frente não apanham
De si mesmo em sua manha

O bálsamo sagrado
Vem do espírito alado
Que descansa lado a lado
Esperando ser amado

Só o amor Só o amor
É que cura
É a coisa mais pura
Que vem direto do Criador

A ilusão convence
E com discurso debate
Expondo meias verdades
Deixando preso no hades

Insisto e persisto
Que tu possas vencer
Digo, digo e volto a dizer
O segredo para não sofrer

É a calmaria de Maria
É o descanso do Mestre
Que ali no convés
Dorme em paz sem estresse

No meio da tempestade
Bem no centro da maré
Onde forma o turbilhão
Está a pérola do Amar É

Ainda há Tempo de se ver
É só querer Ser
Tudo o que já se É
Está contido na Fé.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Culto ao erro

Errai!
Oh, homem que ama!
Andai aos tropeços
Bebericando as carícias de quem lhe rouba o coração!

Errai!
Como todos os que vieram antes de ti!
E, quando já não bastar teu próprio amor,
Designa como necessário a tua existência
A reciprocidade de quem tu não podes controlar!

Errai!
Mas não percebeis o erro
Até o dia em que não mais reconhecerdes vossa imagem
Até o dia em que já não saibais definir quem és!

Errai!
E já sem definições ou noções de auto-suficiência
Sucumbais ao amor de quem talvez não possa dar-lhe, em troca, outra existência!

Errai!
Como arlequino inocente de tua fragilidade,
Descubrais no outro a tua própria brevidade!

Errai!
Por matardes teu orgulho, que já não suporta o eterno movimento
Dos corpos em dança que tira da alma um novo nascimento!

Errai!
Por estar disposto a sacrificar teu mundo fixo, prolixo, que reflete a si mesmo em eterno retorno
Que fez d'água líquido morno provocando vômitos existenciais

Errai!
Por já não ser mais quem era
Por abraçar a impermanência
Por saber que é vã a própria existência
Se não puderes morrer nos braços de teu amor!

segunda-feira, 2 de março de 2015

Dos benefícios do esquecimento

Ah, se tu soubesses o que passa nas imemoriosas cicatrizes que guardas dentro do peito! Mas não! A ineficaz capacidade humana de esquecer da própria dor se encarrega de cegar-lhe os olhos do passado!
Vê? Já não se lembras mais!
Qual muro chapiscado foste responsável por arranhar-te os sentimentos?
De que ferida a casca seca e se desprende, a fim de ser decomposta em bactérias supérfluas?
Esquecestes...
E como os ventos, que vão e vêm, e trazem nova brisa, ainda que da mesma origem, continuas a percorrer o labirinto do coração! A cada armadilha, a vaga sensação de já ter passado por ali...
Ah, memória! Por que faltas aos teus senhores quando precisam de ti? Por certo não se abstêm quando lhe convém?
Felizes daqueles que se esquecem, ainda que, doravante, passem pelos mesmos percalços!
É melhor esquecer e reviver, do que lembrar e remoer!

Olhos atentos

Olhe para o mundo ao seu redor. Vês? Teus sonhos já não parecem tão absurdos assim! Se, por certo, a realidade surpreende em cada esquina do labirinto, quem há de negar as probabilidades ensaiadas nas dimensões oníricas? Visto que tudo não parece passar apenas de percepções resultantes daquilo que se vê e daquilo que falamos pra nós mesmos que vemos?

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Abstrato

Palavras são amórficas ao ar. 
Mas têm formas na boca de quem fala e no ouvido de quem ouve. 
O amor, amórfico em tantos lugares, encontrou um meio de se manifestar.
Tomou forma no coração desse que fala, reluziu em cores nos olhos desse que vê. 
E em plenitude, se fez em você.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Aqueles canarinhos

Era aquela junção de tanta gente, assim, no sangue mesmo. Todos tinham aspectos em comum - nos jeitos, trejeitos, desejos...
Era quase que belo, se não insistissem em esconder isso.
Minto. A beleza era-lhes inegável! Mais do que percebê-los, era sê-los. Quem era nasceu na dança, não precisava pedir permissão para entrar!
Éramos.
E por mais que insistissem em nos fazer de tolos, ríamos por último a gargalhada concentrada das ironias da vida.
Brasileiros.
Era disso que nos chamavam. Éramos mais que isso também. Não pelo sentimento à pátria, forte, impávida, colossal. Mas por carregar na pele, olhos, bocas, cabelos e coração as virtudes e desafios do mundo todo, escondidos nas entrelinhas de um dna mestiço. Sendo estandartes vivos de uma tropa que ainda insiste em ocupar o mundo inteiro, ainda que sem guerras.
Entretanto, não nos entendíamos. Não sabíamos o que éramos. Meio que órfãos, sem uma árvore genealógica bem definida.
Adolescentes.
Teimosos e pirracentos.
Brigas infantis e preconceitos estúpidos...
Mas acima de tudo, imprevisíveis.
E imprevisibilidade é aquilo que pincela a beleza e extrai da admiração o gosto do novo.
O bom novo.
A boa nova.
A união.
Éramos tudo isso.
E mais um pouco...

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sintonizar

Em tuas mãos
Meus dedos se entrelaçam
E são eternos

Em teus braços
Meus abraços se completam
E são eternos

Em teu olhar
Me encontro em um mar
E sou eterno

Em teus lábios
Minh'alma é um rio
Num fluxo eterno

Em tua presença
Meu eu se redescobre
És minha essência

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

PrimoGênito

O filho que me nasce
É gênito de paixão

É grito que esperneia calado
É vida que se arrasta no chão

É filho do mundo
E de Deus
De mim
E de nós

Semente de mais vida
E vírgula de uma oração.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Casmurro

Bento,
São bento,
Sou  Bento.

Tu, livro,
Capítulos,
Capitú.

Capita-me!
A dá-lhe que sou teu
Dom




Casmurro.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Por ora

Só por ora,
Sou livro.

Quão quase a toda hora
Sou homem.

Mas só por agora
Sou livro.

E somente nessa hora
Falo do homem.

Sou livro, embora
O homem seja livre,

E lembra do que fora outrora.

Sou livro porque jaz no túmulo
O homem que foi embora.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Pequeno Parênteses

    - Olhe a cor dos meus olhos. Como estão? - Ele perguntou.

    - Estão verdes, como sempre! Por que? - Ela indagou, curiosa.

    - Pra você estão verdes. Pra mim, estão castanhas. O Olho não é o espelho da alma? Pois então, sua alma consumiu a minha a ponto de eu quase não saber mais quem sou. E meu olho reflete, pra mim, essa nova alma: Você.





Se apaixonar faz bem à alma.



domingo, 2 de junho de 2013

Monocromático

O espectro flutuante dos espelhos me remetem a tons de cinza. As únicas variações que meus olhos alcançam segue um ritmo descompassado e sem graça. Como uma máquina de escrever velha, digito as manchas negras de um coração abatido, ferido. Se cicatrizou, posso apenas conjecturar, fato é, que as coisas perderam seu brilho - por um bom tempo.
Mas é aí que as coisas acontecem. É preciso uma vida monocromática para aprendermos a dar valor a todo o espectro de cores. O arco-íris só é belo pra quem aprende o seu valor, que não pode ser comprado nem adquirido por forças próprias: ele é um presente. E a vida, por mais que a maioria não acredite, costuma presentar aqueles que aprendem isso. Não sou digno, nem fiz por onde merecer mas, por já ter corrido atrás com minhas próprias forças, sei o quão valioso é receber tão linda dádiva.
Ontem, escrevia sobre uma pilha de cinzas. 
Hoje, consigo ver o pote de ouro no final do arco-íris.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Lua

Maldita Lua
Que de cima
Traz alma tua
E banha minha sina

Num banho, nua
Despe-me a calma
Reluze crua
Forja-me casa

Arrebata-me
Junto aos céus
Mata-me
Rasgue o véu

Ilumine a noite
Afasta escuridão
Me traz à corte
Abre meu coração.

Bendita Lua.


Noite bela
De esperança.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Duetos para a vida

Sê de tudo o que faz
A qual sede tudo traz

Com a paz em todo o canto
Coma o pranto que em ti desfaz!

E se Amar não for o bastante,
Jogue ao mar o que antes não bastar!

Desapegue!
Venha e pegue a ti mesmo

O Universo já escreveu,
Em um só verso o que é teu!


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Navegadores e suas histórias


O quinto capítulo de Navigazioni fantastici de Giovanni Pondicherry conta a história de Pacanarus, um navegador tímido do século XVII. Pacanarus, com apenas um navio e alguns marinheiros inexperientes, descobriu uma ilha habitada por animais nunca antes vistos e um vulcão adormecido, no meio do pacífico. Alguns dizem que este fato inspirou Verne em seu livro "A Ilha Misteriosa", e que a ilha encontrada por Pacanarus, seria a Ilha Lincoln.
Desacreditado por todos os seus conterrâneos, o pequeno navegador não se deixou desanimar, e sempre falava: "Todo navegador, por mais que não tenha percorrido todo o oceano, sempre tem boas histórias pra contar." (Pág. 117, capítulo V) verbi gratia.
Não se sabe como, mas suas anotações de bordo posteriormente serviram para melhorar drasticamente o modo com que se realizava as grandes expedições do séc. XVIII.
Pacanarus é um episódeo desconhecido da História, mas não por isso, menos importante. A ironia da vida costuma rebaixar os grandes para que não se exaltem, e a seu devido tempo, sejam lhes conferidos a glória.
"Quem quiser ser realmente grande, precisa aprender a descer até a grandeza" disse Paulo Brabo em um de seus manuscritos. Essa é a máxima, a lei dos humildes.
Pacanarus morreu, não se sabe onde, não se sabe quando, mas sua pequena obra continua reverberando nos dias de hoje.

E não é isso que fazemos? Não precisamos de bons fatos para redigirmos bons contos!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Intransitivo

Como amo, 
Se não há quem amo,
É só amor
Que existe em mim?

Não há destino
Não há origem
Só a existência
Que é sem fim!

Sem objeto,
Não é direto
Nem indireto,
Mas cabe o afeto

Como amar
Se sou barco
A derivar
Em alto mar?

Mas Já não dizia nossa língua,
Que o Amor é subjetivo
Independe do predicado,
E faz do Amar,
Verbo intransitivo?

domingo, 24 de março de 2013

22

Os amigos vem e vão
Os amores também

As lembranças vem e ficam
Fazem morada na alma
Abraça a tristeza e a alegria
E ceia junto a elas

O dinheiro vem e vai
A paciência também

A vontade sempre esteve aqui
E à vida, dá sua força
Com fé e esperança
Caminhando junto a elas

Todas essas coisas vem e vão
Mas há sempre uns poucos e bons

Esses poucos, raros, fazem bater mais forte o coração
E com "surpresas" (porque no fundo a gente sempre sabe)
Nos surpreendem com carinho e atenção

O tempo revela quem são
E, mesmo que ele passe
E eu não lembre depois
Sei lá no fundo que amigos tive
Lá pelos meus vinte e dois!

Obrigado pela existência de vocês!

quarta-feira, 20 de março de 2013

Pormenores

São 23:05. Caminho em direção ao ponto de ônibus, quando me dá uma vontade de tomar um refrigerante. Verifico as moedas existentes no bolso, está a conta: 2,50 a latinha. Passo direto do ponto para o barzinho mais próximo - sabia que o ônibus ia demorar mais uns 20 minutos. O barzinho é pequeno, seus poucos fregueses, uns bêbados assistindo futebol, mas apesar de tudo, um buteco com o refrigerante que eu queria. Pergunto pro tio do bar, se tem refrigerante. Ele me responde que sim. Pergunto o preço para me assegurar de que vou poder pagar, e peço uma latinha de refri. O tio vai buscar a lata e, ao voltar, faz algo que eu não esperaria nunca de um lugar daqueles.
O tio lavou a lata. Com esponja e detergente. Ao pegar a lata e agradecer, ele ainda me perguntou:
- Aceita canudo?


Mais uma das evidências de que o exemplo vem de baixo, dos pormenores do caminho.