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quarta-feira, 3 de maio de 2023

Narra-dor

Se me lanças tua verdade
Afiada de navalha coesa
Me acertas em cheio
À medida da vaidade

Como identificar tal Maldade,
Se se transveste de justiça?
Usando argumentos infinitos
É possível transformar qualquer crime em Louvor

Se até a palavra de Deus é usada como álibi
E justifica ~quase~ toda maldade humana
O que dirá de meu amor?
A quem serve de narrativa ao Terror...

Na lógica vingativa
A Vingança é divina
Quem pois, se deleita em seu banquete
Um dia terá de pagar a conta
Como todo diabrete...

Histórias criadas servem de desculpa
Pra não se encarar os diversos pontos de vista
Que de um prisma converge na luz
Que ilumina o labirinto mental

Admitir o efeito da mentira
É como se olhar no espelho
Mas em todo caso
O espelho é o outro

Anacronismo e Pleonasmo
São as colunas deste Templo
Que de sagrado sangra o peito
De quem é levado ao seu intento

Podes inventar qualquer desculpa
Só não admites o desejo
Pois ele precisa de uma justificativa
E faz da culpa, seu arejo

Desejo livre não precisa de porquês
Mas, como ~quase~ toda moeda,
Surrupiado por Burguês,
Vira moeda especulada
E escraviza o Camponês.


terça-feira, 21 de julho de 2015

A amizade sublime, o espelho em que se reconhece facilmente e seu portador: o amigo.

O espelho que melhor nos representa
A miragem, de certo, real, que nos leva ao oasis do Ser
Sendo alvo de nós mesmos, haveria algo mais sublime?
Olho-te amigo, e olho-me no fundo da alma
Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro
Quem encontrou o espelho, encontrou a si mesmo
Dói e cura
Uma palavra de afeto, também é um tapa à face
Carregas em pele, os pêlos e os porquês
Os poros, os vícios, os estalos em tez
A amizade é a relação mais alta
É o topo da escada do autoconhecimento
Só pode encontrá-la quem a puder encarnar
A escada se sobe em mão-dupla
Com os dedos entrelaçados ao outro ser
Sendo dois, encontra-se o Um
Suba os montes mais tenebrosos
Ao lado de quem sabe quem tu és
Por vezes até mais que tu mesmo
E tu, por certo, saberás quem és
Ao reconhecerdes em teu irmão
Tua própria imagem manifesta.
Afete e seja afetado.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Culto ao erro

Errai!
Oh, homem que ama!
Andai aos tropeços
Bebericando as carícias de quem lhe rouba o coração!

Errai!
Como todos os que vieram antes de ti!
E, quando já não bastar teu próprio amor,
Designa como necessário a tua existência
A reciprocidade de quem tu não podes controlar!

Errai!
Mas não percebeis o erro
Até o dia em que não mais reconhecerdes vossa imagem
Até o dia em que já não saibais definir quem és!

Errai!
E já sem definições ou noções de auto-suficiência
Sucumbais ao amor de quem talvez não possa dar-lhe, em troca, outra existência!

Errai!
Como arlequino inocente de tua fragilidade,
Descubrais no outro a tua própria brevidade!

Errai!
Por matardes teu orgulho, que já não suporta o eterno movimento
Dos corpos em dança que tira da alma um novo nascimento!

Errai!
Por estar disposto a sacrificar teu mundo fixo, prolixo, que reflete a si mesmo em eterno retorno
Que fez d'água líquido morno provocando vômitos existenciais

Errai!
Por já não ser mais quem era
Por abraçar a impermanência
Por saber que é vã a própria existência
Se não puderes morrer nos braços de teu amor!

segunda-feira, 2 de março de 2015

Dos benefícios do esquecimento

Ah, se tu soubesses o que passa nas imemoriosas cicatrizes que guardas dentro do peito! Mas não! A ineficaz capacidade humana de esquecer da própria dor se encarrega de cegar-lhe os olhos do passado!
Vê? Já não se lembras mais!
Qual muro chapiscado foste responsável por arranhar-te os sentimentos?
De que ferida a casca seca e se desprende, a fim de ser decomposta em bactérias supérfluas?
Esquecestes...
E como os ventos, que vão e vêm, e trazem nova brisa, ainda que da mesma origem, continuas a percorrer o labirinto do coração! A cada armadilha, a vaga sensação de já ter passado por ali...
Ah, memória! Por que faltas aos teus senhores quando precisam de ti? Por certo não se abstêm quando lhe convém?
Felizes daqueles que se esquecem, ainda que, doravante, passem pelos mesmos percalços!
É melhor esquecer e reviver, do que lembrar e remoer!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Aos Amigos...

Uma pinta de ponto no outro
O abraço, singelo, afetuoso
De pedros, pedras, pulos
É feito pão e água
Irmão de alma
Básico
Indispensável
Panelas velhas pipocando parcerias
É o próximo, lógico, em amor
Doar-se inteiros em metades
Preencher vazios por vontades
Almas gêmeas siamesas
Que de dois tiram proezas
E quanto mais se põe à mesa
Somando tudo têm-se a beleza.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Luas e Estrelas

Havia uns 5 anos desde a última vez que o encontrei. Costumava encenar algumas peças escritas por ele quando éramos mais íntimos, antes do seu último casamento. A mulher havia deixado apenas uma pequena quitinete onde agora nos encontrávamos. Um café morno fazia esforço pra esquentar minhas mãos, enquanto lutava comigo mesmo para ser mais cordial com meu velho amigo.
"É uma metáfora!" - Nem precisava me dizer, sempre era uma metáfora.
"Mas é sobre o que exatamente?" - perguntei meio entendiado.
"É sobre relacionamentos. A história fala de luas e estrelas. É mais um esboço de uma ideia antiga, sobre narrativas estarem escritas no céu, apenas esperando a nossa leitura tímida." - Era bom vê-lo falar de romantismo depois do acontecido.
Como não falei mais nada, continuou.
"Podemos comparar os relacionamentos humanos apenas olhando pras estrelas e luas."
"Como assim?" - indaguei, querendo mostrar interesse, apesar do café ser mais digno de minha atenção.
 "A estrela tem luz própria. A lua não. Ela apenas reflete a luz da estrela, certo? É como nós! Olhe a sua volta: existem aqueles que vivem em função do outro, depende do amor dele e só reflete aquilo de volta. Ele não ama por si só, apenas copia, mas não percebe. Quando descobre suas próprias intenções, ou quando se decepciona, a cópia do amor morre - não tem luz própria.
"Certo, mas então, como amar do jeito certo? Nós só temos um sol e uma lua, um sempre terá que ser a fonte de luz do outro."
"Quem disse? Você está pensando só no nosso sistema! E não me impressiona sempre pensarmos NESSE sistema. Existem estrelas gêmeas, onde as duas vivem em harmonia em um único sistema. As duas têm luz própria e ambas são afetadas pela gravidade gerada pela outra."
"Mas essa metáfora não é novidade! A ideia de alma gêmea é uma das mais velhas que existem!"
"Pode ser, mas o que seria alma gêmea? Duas pessoas que nasceram uma pra outra? Não é disso que to falando. Falo de almas que têm luz própria e se deixam afetar pelo centro gravitacional de outra. ISSO é o que, em termos de alma, chamamos de gêmeo."

Parei de discutir. Não havia o que falar. Depois do que passou, estar tão obstinado com tal ideia poderia significar a salvação de sua alma, que após a supernova do seu coração, formou um buraco negro com o que restou de seu núcleo.